ideário naculturidade
natureza - cultura - espiritualidade
4 de março de 2012
29 de julho de 2011
Vídeo imperdível!!
Vamos movimentar isso aqui?
Pois é, to inspirado... to afim de retomar e compartilhar!
Espero que gostem do vídeo, o mais bacana sobre bikes que já assisti até agora.
E para ver a 2a e 3a parte, ecco o link:
http://bicicletadacuritiba.wordpress.com/2011/07/20/o-veiculo-fantastico-documentario/
Abraços,
Thiago
Pois é, to inspirado... to afim de retomar e compartilhar!
Espero que gostem do vídeo, o mais bacana sobre bikes que já assisti até agora.
E para ver a 2a e 3a parte, ecco o link:
http://bicicletadacuritiba.wordpress.com/2011/07/20/o-veiculo-fantastico-documentario/
Abraços,
Thiago
8 de abril de 2011
Lhasa de Sela - La Frontera
Uma das minhas músicas preferidas!
(pena que o câncer a levou tão cedo...)
31 de março de 2011
Sobre a moral, a ética e a metafísica
O embate político de idéias se faz sempre em torno do que todos na sociedade deveriam fazer para que o bem estar coletivo predomine. Uns partidos acham que X, outros que Y. E os que acham que é cada um por si e que se danem os outros são tão poucos que eles nem tomam partido na esfera política, ao menos no Brasil. Aliás, vi bastante desses pseudo-anarquistas na Itália, um país esfacelado pelo individualismo a la americana e pela imoralidade pública.
A propósito, não tenho receio de dizer a palavra “moral”. Alguém pode achar que o seu único sentido seja aquele anacrônico e hipócrita da visão católica de mundo, uma visão “moralista”. Mas quando falo de moral, penso no sentido filosófico do termo. Do latim mores, "relativo aos costumes". Costuma-se não entrar na casa e roubar o dinheiro do vizinho, pois ele pode ficar puto, e você mesmo pode não gostar da reação dele (moral individual). Costuma-se não colocar no bolso o dinheiro do povo, pois independente de ser contra a lei e haver punição, se o povo souber disso pode ser que ele não queira que o político continue lá, pois provavelmente ele não entendeu ou não mereça o mandato que tem (moral pública).
Sou contra qualquer forma de radicalismo. Acredito que no mais das vezes a resposta está no caminho do meio, no equilíbrio. Assim como repudio moralistas e conservadores extremos, acredito que a visão excessivamente libertária se equivoca quando, na coroação absoluta do subjetivismo e individualismo, ignora completamente ao menos dois amplos campos da filosofia: a ética e a metafísica (pra não falar da política).
A ética é o ramo da filosofia que busca estudar e indicar o melhor modo de viver no cotidiano e na sociedade. “Na filosofia clássica, a ética abrangia os campos que atualmente são denominados antropologia, psicologia, sociologia, economia, pedagogia, educação física, dialética e até mesmo política, em suma, campos direta ou indiretamente ligados a maneiras de viver.” (Wikipédia)
Já a metafísica clássica ocupa-se das "questões últimas" da filosofia, tais como: há um sentido para a existência do mundo? A organização do mundo é necessariamente essa com que deparamos, ou seriam possíveis outros mundos? Deus existe? Se existe, como podemos entendê-lo? Existe algo como um "espírito" no ser humano? Há uma diferença fundamental entre mente e matéria? Os seres humanos são dotados de almas imortais? São dotados de livre-arbítrio? Tudo está em permanente mudança, ou há coisas e relações que, a despeito de todas as mudanças aparentes, permanecem sempre iguais? (idem)
Às perguntas acima, muitos filósofos disseram não, não há e não pode haver um Deus nem espírito nenhum. Outros tantos disseram, sim, deve haver qualquer coisa que tenha dado o pontapé inicial, e talvez uma força ou conjunto de leis naturais imutáveis que regem automaticamente e dão um sentido ao universo. Essa discussão é tão antiga quanto o é o homem, e ainda não está resolvida filosoficamente. Talvez, nem a ciência e nem a filosofia sozinhas conseguirão explicar isso. O mundo é um pouco mais complexo do quanto imaginamos. Por isso gosto da transdisciplinaridade, que inaugura uma nova fase de abertura ao novo. http://idearionaculturidade.blogspot.com/2008/06/resenha-manifesto-da.html
Enfim, o pano da manga vai ainda hoje desde amigos no botequim a debates sérios e aprofundados entre pensadores de renome. O que se sabe é que a imensa maioria da população mundial possui alguma forma de religião ou espiritualidade. E isso entre todos os povos, de todas as épocas. A física quântica começa a dar umas pistas interessantes, no que eu particularmente acredito ser uma aproximação cada vez maior da física com a metafísica (ou ciência e religiões). Mas aí já estou me posicionando e não é esse o objetivo. Em suma, essa divisão de existe ou não existe um algo a mais que a mera carne, e conseqüentemente existe ou não um porquê fazer o bem e ajudar o próximo, não se dá apenas entre ateus e religiosos, mas se trata de um capítulo importante e inconcluso da filosofia, e da própria odisséia humana.
A propósito, não tenho receio de dizer a palavra “moral”. Alguém pode achar que o seu único sentido seja aquele anacrônico e hipócrita da visão católica de mundo, uma visão “moralista”. Mas quando falo de moral, penso no sentido filosófico do termo. Do latim mores, "relativo aos costumes". Costuma-se não entrar na casa e roubar o dinheiro do vizinho, pois ele pode ficar puto, e você mesmo pode não gostar da reação dele (moral individual). Costuma-se não colocar no bolso o dinheiro do povo, pois independente de ser contra a lei e haver punição, se o povo souber disso pode ser que ele não queira que o político continue lá, pois provavelmente ele não entendeu ou não mereça o mandato que tem (moral pública).
Sou contra qualquer forma de radicalismo. Acredito que no mais das vezes a resposta está no caminho do meio, no equilíbrio. Assim como repudio moralistas e conservadores extremos, acredito que a visão excessivamente libertária se equivoca quando, na coroação absoluta do subjetivismo e individualismo, ignora completamente ao menos dois amplos campos da filosofia: a ética e a metafísica (pra não falar da política).
A ética é o ramo da filosofia que busca estudar e indicar o melhor modo de viver no cotidiano e na sociedade. “Na filosofia clássica, a ética abrangia os campos que atualmente são denominados antropologia, psicologia, sociologia, economia, pedagogia, educação física, dialética e até mesmo política, em suma, campos direta ou indiretamente ligados a maneiras de viver.” (Wikipédia)
Já a metafísica clássica ocupa-se das "questões últimas" da filosofia, tais como: há um sentido para a existência do mundo? A organização do mundo é necessariamente essa com que deparamos, ou seriam possíveis outros mundos? Deus existe? Se existe, como podemos entendê-lo? Existe algo como um "espírito" no ser humano? Há uma diferença fundamental entre mente e matéria? Os seres humanos são dotados de almas imortais? São dotados de livre-arbítrio? Tudo está em permanente mudança, ou há coisas e relações que, a despeito de todas as mudanças aparentes, permanecem sempre iguais? (idem)
Às perguntas acima, muitos filósofos disseram não, não há e não pode haver um Deus nem espírito nenhum. Outros tantos disseram, sim, deve haver qualquer coisa que tenha dado o pontapé inicial, e talvez uma força ou conjunto de leis naturais imutáveis que regem automaticamente e dão um sentido ao universo. Essa discussão é tão antiga quanto o é o homem, e ainda não está resolvida filosoficamente. Talvez, nem a ciência e nem a filosofia sozinhas conseguirão explicar isso. O mundo é um pouco mais complexo do quanto imaginamos. Por isso gosto da transdisciplinaridade, que inaugura uma nova fase de abertura ao novo. http://idearionaculturidade.blogspot.com/2008/06/resenha-manifesto-da.html
Enfim, o pano da manga vai ainda hoje desde amigos no botequim a debates sérios e aprofundados entre pensadores de renome. O que se sabe é que a imensa maioria da população mundial possui alguma forma de religião ou espiritualidade. E isso entre todos os povos, de todas as épocas. A física quântica começa a dar umas pistas interessantes, no que eu particularmente acredito ser uma aproximação cada vez maior da física com a metafísica (ou ciência e religiões). Mas aí já estou me posicionando e não é esse o objetivo. Em suma, essa divisão de existe ou não existe um algo a mais que a mera carne, e conseqüentemente existe ou não um porquê fazer o bem e ajudar o próximo, não se dá apenas entre ateus e religiosos, mas se trata de um capítulo importante e inconcluso da filosofia, e da própria odisséia humana.
29 de março de 2011
Revolução Social x Revolução Interior
Não acredito em nenhum tipo de "revolução social". Só uma revolução individual, interior. O motivo é simples: com toda a propaganda do mundo, é simplesmente impossível convencer todas ou a esmagadora maioria das pessoas de qualquer tipo de idéia imaginável, muito menos de um dia para o outro. Esse é o grande erro do comunismo, achar que tem o monopólio da verdade, e então bastaria convencer a sociedade disso para que ela se unisse e desbancasse os capitalistas, os donos do poder. Ora, qualquer governo, seja capitalista ou não, teria que ter representantes, ministros, e esses simplesmente seriam os novos dirigentes, de regras e regulamentos sociais, etc. Ou seja, não mudaria nada! Saem uns "privilegiados", entram outros. Sem contar que para fazer com que haja esse pensamento único da revolução, mata-se a torto e direito os dissidentes, como fez Stalin com milhões e Cuba com muitos.
A revolução interior se faz com educação, arte, leitura, reflexão crítica, trocas e intercâmbios contínuos com o outro, e quanto mais diferente o outro melhor, mais se aprende. Cada um faz a revolução que quiser, se quiser, quando quiser, do modo que mais lhe apetece, com a teoria que melhor se aprume a sua experiência pessoal. Não existe verdade absoluta, mas nas trocas contínuas vão surgindo princípios básicos de respeito mútuo, reciprocidade. Princípios que ao surgirem espontaneamente mais ou menos por todo o mundo, no confronto entre experiências sociais e nacionais, fizeram nascer os direitos fundamentais, direitos inerentes à pessoa, direitos humanos.
A única possível portanto é a minha revolução, de mim para comigo mesmo, que é o único âmbito sobre o qual tenho real controle, e o único no qual não preciso convencer ninguém de nada. Eu estudo, me convenço de certas coisas, e mudo o meu comportamento para ser coerente à minha teoria. Se essa teoria e a consequente mudança for mesmo útil, interessante para outras pessoas, elas vão perceber a minha mudança, vão perceber que me sinto bem, feliz, e talvez vão se interessar pela teoria. Se muitas pessoas se interessarem talvez eu escreva um livro e assim por diante. O resto é demagogia. Não dá pra confiar em quem diz uma coisa e faz outra.
A revolução interior se faz com educação, arte, leitura, reflexão crítica, trocas e intercâmbios contínuos com o outro, e quanto mais diferente o outro melhor, mais se aprende. Cada um faz a revolução que quiser, se quiser, quando quiser, do modo que mais lhe apetece, com a teoria que melhor se aprume a sua experiência pessoal. Não existe verdade absoluta, mas nas trocas contínuas vão surgindo princípios básicos de respeito mútuo, reciprocidade. Princípios que ao surgirem espontaneamente mais ou menos por todo o mundo, no confronto entre experiências sociais e nacionais, fizeram nascer os direitos fundamentais, direitos inerentes à pessoa, direitos humanos.
A única possível portanto é a minha revolução, de mim para comigo mesmo, que é o único âmbito sobre o qual tenho real controle, e o único no qual não preciso convencer ninguém de nada. Eu estudo, me convenço de certas coisas, e mudo o meu comportamento para ser coerente à minha teoria. Se essa teoria e a consequente mudança for mesmo útil, interessante para outras pessoas, elas vão perceber a minha mudança, vão perceber que me sinto bem, feliz, e talvez vão se interessar pela teoria. Se muitas pessoas se interessarem talvez eu escreva um livro e assim por diante. O resto é demagogia. Não dá pra confiar em quem diz uma coisa e faz outra.
28 de março de 2011
Meu primeiro conto (sem título)
Aquele dia, ele saiu de casa cedo para vender balões. Hélio não gostava nem desgostava de balões, como não gostava nem desgostava de quase nada. Os amendoins doces que ele comprava a três terminais de sua casa, no Carmo, haviam passado de 0,25 centavos o pacote para 0,60. "Sessenta centavos, como é que eu vou vendê-los a 2,00 reais agora? Não vou vender nada, não vale a viagem" disse Hélio para a sua companheira, Marlete. Quinze anos juntos entre idas e vindas. A verdade é que os dois não se largavam.
Na noite anterior, a chuva torrencial alagara o terreno. O bueiro da rua sem meio-fio havia entupido de novo. Marlete passou a noite trocando as panelas de lugar, com o teto que gotejava sem parar. A casa de madeira que fora de sua mãe, na Fazendinha, já não resistia aos cupins, traças e outros vermes.
Naquele dia, zanzando pela cidade Hélio vendeu 3 balões. Nove horas na metrópole esvaziada pelo feriado. Mas naquele dia ele voltou para casa diferente. “Que que ocê tem hôme?” Então ele contou a Marlete da sua visita ao Passeio Público. Foi lá que Hélio sentou para descansar enquanto via as crianças brincar na balança. Lentamente o ferro gritava ihhh, ômmm, ihh, ômm... Aquela menininha loira, de uns 3 anos de idade, lembrava muito a sua filha. O pai a balançava e ria. “Tô tonta pai, paaai to tonta!” E ele continuava a balançá-la, e ela, num querer não querendo, fechava os olhos e gargalhava...
Ali o tempo parou para Hélio. Sua memória viajava movida pelo vento fresco daquele outono. Não via sua filha, Isabela, há mais de 10 anos. A mãe mudara para São Paulo em busca de trabalho. Tinha parentes lá. Isabela era fruto de um relacionamento com Mara, moça bonita, enquanto Hélio já namorava com Marlete. Como estaria aquele cabelinho loiro cacheado hoje, pensava? Na menina da balança, via sua bonequinha.
Mara a trazia nos finais de semana para a casa da mãe de Hélio. Dormiam juntos, ele e a filha. Ela o abraçava, fazia carinhos em seu rosto. Nunca ninguém havia feito carinhos em seu rosto. As vezes ele tardava a dormir, pois mesmo estando em posição incomoda, preferia não se mexer para não acordá-la. Ficara encantado de ser pai, e esse sentimento não diminuiu com os anos. “Cadê minha princesinha?" E Isabela corria portão adentro com um sorriso largo no rosto para abraçá-lo.
As lágrimas caiam de seu rosto sofrido, suado. Ihh, ômm, aquela podia ser Isabela. Chegou em casa tarde. “Vou atrás da minha filha” disse à esposa. “Vou vender essa TV que não serve pra nada e vou pra São Paulo ver minha filha Marlete. Ela precisa de um pai. Ela precisa de mim.” Marlete o abraçou forte. Não podiam ter filhos. “Vai meu amor, vai que eu te espero”.
Na noite anterior, a chuva torrencial alagara o terreno. O bueiro da rua sem meio-fio havia entupido de novo. Marlete passou a noite trocando as panelas de lugar, com o teto que gotejava sem parar. A casa de madeira que fora de sua mãe, na Fazendinha, já não resistia aos cupins, traças e outros vermes.
Naquele dia, zanzando pela cidade Hélio vendeu 3 balões. Nove horas na metrópole esvaziada pelo feriado. Mas naquele dia ele voltou para casa diferente. “Que que ocê tem hôme?” Então ele contou a Marlete da sua visita ao Passeio Público. Foi lá que Hélio sentou para descansar enquanto via as crianças brincar na balança. Lentamente o ferro gritava ihhh, ômmm, ihh, ômm... Aquela menininha loira, de uns 3 anos de idade, lembrava muito a sua filha. O pai a balançava e ria. “Tô tonta pai, paaai to tonta!” E ele continuava a balançá-la, e ela, num querer não querendo, fechava os olhos e gargalhava...
Ali o tempo parou para Hélio. Sua memória viajava movida pelo vento fresco daquele outono. Não via sua filha, Isabela, há mais de 10 anos. A mãe mudara para São Paulo em busca de trabalho. Tinha parentes lá. Isabela era fruto de um relacionamento com Mara, moça bonita, enquanto Hélio já namorava com Marlete. Como estaria aquele cabelinho loiro cacheado hoje, pensava? Na menina da balança, via sua bonequinha.
Mara a trazia nos finais de semana para a casa da mãe de Hélio. Dormiam juntos, ele e a filha. Ela o abraçava, fazia carinhos em seu rosto. Nunca ninguém havia feito carinhos em seu rosto. As vezes ele tardava a dormir, pois mesmo estando em posição incomoda, preferia não se mexer para não acordá-la. Ficara encantado de ser pai, e esse sentimento não diminuiu com os anos. “Cadê minha princesinha?" E Isabela corria portão adentro com um sorriso largo no rosto para abraçá-lo.
As lágrimas caiam de seu rosto sofrido, suado. Ihh, ômm, aquela podia ser Isabela. Chegou em casa tarde. “Vou atrás da minha filha” disse à esposa. “Vou vender essa TV que não serve pra nada e vou pra São Paulo ver minha filha Marlete. Ela precisa de um pai. Ela precisa de mim.” Marlete o abraçou forte. Não podiam ter filhos. “Vai meu amor, vai que eu te espero”.
22 de fevereiro de 2011
8 de setembro de 2010
Uma juventude sem ética
Reproduzo um artigo interessante que recebi de um amigo um tempo atrás...
Uma juventude sem ética
Gazeta do Povo - Publicado em 30/03/2009 | João Malheiro
Cada vez mais, nos dias que correm, pais e educadores de jovens e adolescentes se deparam com um problema muito sério nessa passagem difícil da adolescência para a idade adulta: a grande indiferença para o aprendizado moral e para a vivência ética das virtudes.
De fato, observa-se que são muitos os jovens que passam, como ensinava Piaget, dessa fase da heteronomia moral – fase de viver o que lhe mandam – para a fase da autonomia ética de forma bastante indiferente e desinteressada, como se suas escolhas não determinassem, em parte, sua felicidade e seu futuro. A resposta para este fenômeno parece estar não só na desvalorização e/ou incapacidade familiar e escolar para a educação ética/moral, mas também no atraso dessa passagem que a própria família e a sociedade de consumo estão provocando, mais ou menos inconscientemente.
Infelizmente, como diz Tony Anatrella, renomado psicanalista francês, uma das maiores contradições de nossa sociedade ocidental consiste em fazer crescer a juventude muito rapidamente, facilitando-lhe várias experiências precoces, muitas delas nocivas, e, ao mesmo tempo, animá-la a permanecer adolescente o maior tempo possível, com as facilidades de uma vida cômoda e sem dificuldades. Aprofundemos no fenômeno.
Desde a mais tenra idade, tanto os pais como as empresas de consumo, com seus poderosos veículos de comunicação de massa, ambos com intenções muitas vezes duvidosas e pouco éticas, procuram satisfazer as crianças com todos os equipamentos de diversão e comunicação, de forma que os “convençam” que ficarem em casa, no seu quartinho, como numa autêntica “bolha protetora de micróbios”, é a forma de serem e viverem mais felizes e seguras, depois da escola. Constroem para eles uma autêntica “bolha material”, onde há pouco espaço para o diálogo educativo e para as amizades verdadeiras. Como aponta Tânia Zaguri, sentimentos de culpa pela ausência e omissão dos pais, que têm que trabalhar, são muitas vezes os motivadores para esses excessos.
Quando chegam à idade de desenvolver mais suas capacidades e habilidades intelectuais, as famílias as “entopem” de cursos e esportes extraescolares, com a ilusão de que assim conseguirão maior realização profissional futura. Entretanto, como com a “bolha material” só conseguiram desenvolver uma ou duas amizades reais – virtuais muitas! – as crianças, ao sair de casa para esses inúmeros cursos, sentem dificuldade no relacionamento e muita insegurança. Como solução, muitas são como que obrigadas a transportar de forma inconsciente essa bolha material invisível para se refugiar: celulares com os seus derivativos, mp4 player, livros... Tendo dificuldade para se comunicar e descobrir um “outro tu”, reforçam a bolha material criando uma nova camada que poderíamos chamar de “bolha psicológica”, que as cegam para qualquer interesse que não seja individual.
Por fim, se tiveram a sorte de conseguir ingressar na vida universitária, onde existe habitualmente uma explosão intelectual, um aumento do conhecimento e uma liberdade falsamente ilimitada, os jovens que não aprenderam o certo e errado, sentem necessidade de criar uma ética própria para satisfazer suas inseguranças ou justificar suas ações, muitas vezes erradas, que tranquilize suas consciências. Criam uma terceira camada da bolha, chamada “bolha filosófica”. As tragédias nesta fase, que quase sempre são de tentativa e erro, costumam ser frequentes e deixam marcas para o resto da vida.
Esta tríplice camada que envolve os “meninos-bolha” é a que produz depois uma enorme força-resultante centrípeta egocêntrica que os leva a realizar somente aquilo que alimenta um eu voraz de prazer sem lógica e sem limites, gerando, consequentemente, um subjetivismo irracional, uma ética sem fundamentos sólidos e, ao final, um coração embolhado, isto é, vazio de amor: não conseguem entender a linguagem do amor e da amizade verdadeiros. Estes “meninos-bolhas” não conseguem, na prática, transcender e valorizar a ética, porque ela só se busca quando se tem um porto a chegar, um ideal de perfeição a se alcançar.
A forma de se abrir para uma educação ética é esperar que a própria vida, com suas vicissitudes e tragédias dolorosas, se encarregue de furar a bolha, acordando-os para uma realidade que não conhecem. Outra forma mais prazerosa e inteligente, é aquela em que um amigo(a) os ajude não só a repensar a própria vida moral, mas também a descobrir que é a própria dinâmica e vivência das virtudes da temperança, fortaleza, justiça e prudência, nessa ordem, que evitará que essas bolhas e camadas se formem.
João Malheiro é doutor em Educação e integra o grupo de Pesquisa de Ética na Educação da UFRJ.
Uma juventude sem ética
Gazeta do Povo - Publicado em 30/03/2009 | João Malheiro
Cada vez mais, nos dias que correm, pais e educadores de jovens e adolescentes se deparam com um problema muito sério nessa passagem difícil da adolescência para a idade adulta: a grande indiferença para o aprendizado moral e para a vivência ética das virtudes.
De fato, observa-se que são muitos os jovens que passam, como ensinava Piaget, dessa fase da heteronomia moral – fase de viver o que lhe mandam – para a fase da autonomia ética de forma bastante indiferente e desinteressada, como se suas escolhas não determinassem, em parte, sua felicidade e seu futuro. A resposta para este fenômeno parece estar não só na desvalorização e/ou incapacidade familiar e escolar para a educação ética/moral, mas também no atraso dessa passagem que a própria família e a sociedade de consumo estão provocando, mais ou menos inconscientemente.
Infelizmente, como diz Tony Anatrella, renomado psicanalista francês, uma das maiores contradições de nossa sociedade ocidental consiste em fazer crescer a juventude muito rapidamente, facilitando-lhe várias experiências precoces, muitas delas nocivas, e, ao mesmo tempo, animá-la a permanecer adolescente o maior tempo possível, com as facilidades de uma vida cômoda e sem dificuldades. Aprofundemos no fenômeno.
Desde a mais tenra idade, tanto os pais como as empresas de consumo, com seus poderosos veículos de comunicação de massa, ambos com intenções muitas vezes duvidosas e pouco éticas, procuram satisfazer as crianças com todos os equipamentos de diversão e comunicação, de forma que os “convençam” que ficarem em casa, no seu quartinho, como numa autêntica “bolha protetora de micróbios”, é a forma de serem e viverem mais felizes e seguras, depois da escola. Constroem para eles uma autêntica “bolha material”, onde há pouco espaço para o diálogo educativo e para as amizades verdadeiras. Como aponta Tânia Zaguri, sentimentos de culpa pela ausência e omissão dos pais, que têm que trabalhar, são muitas vezes os motivadores para esses excessos.
Quando chegam à idade de desenvolver mais suas capacidades e habilidades intelectuais, as famílias as “entopem” de cursos e esportes extraescolares, com a ilusão de que assim conseguirão maior realização profissional futura. Entretanto, como com a “bolha material” só conseguiram desenvolver uma ou duas amizades reais – virtuais muitas! – as crianças, ao sair de casa para esses inúmeros cursos, sentem dificuldade no relacionamento e muita insegurança. Como solução, muitas são como que obrigadas a transportar de forma inconsciente essa bolha material invisível para se refugiar: celulares com os seus derivativos, mp4 player, livros... Tendo dificuldade para se comunicar e descobrir um “outro tu”, reforçam a bolha material criando uma nova camada que poderíamos chamar de “bolha psicológica”, que as cegam para qualquer interesse que não seja individual.
Por fim, se tiveram a sorte de conseguir ingressar na vida universitária, onde existe habitualmente uma explosão intelectual, um aumento do conhecimento e uma liberdade falsamente ilimitada, os jovens que não aprenderam o certo e errado, sentem necessidade de criar uma ética própria para satisfazer suas inseguranças ou justificar suas ações, muitas vezes erradas, que tranquilize suas consciências. Criam uma terceira camada da bolha, chamada “bolha filosófica”. As tragédias nesta fase, que quase sempre são de tentativa e erro, costumam ser frequentes e deixam marcas para o resto da vida.
Esta tríplice camada que envolve os “meninos-bolha” é a que produz depois uma enorme força-resultante centrípeta egocêntrica que os leva a realizar somente aquilo que alimenta um eu voraz de prazer sem lógica e sem limites, gerando, consequentemente, um subjetivismo irracional, uma ética sem fundamentos sólidos e, ao final, um coração embolhado, isto é, vazio de amor: não conseguem entender a linguagem do amor e da amizade verdadeiros. Estes “meninos-bolhas” não conseguem, na prática, transcender e valorizar a ética, porque ela só se busca quando se tem um porto a chegar, um ideal de perfeição a se alcançar.
A forma de se abrir para uma educação ética é esperar que a própria vida, com suas vicissitudes e tragédias dolorosas, se encarregue de furar a bolha, acordando-os para uma realidade que não conhecem. Outra forma mais prazerosa e inteligente, é aquela em que um amigo(a) os ajude não só a repensar a própria vida moral, mas também a descobrir que é a própria dinâmica e vivência das virtudes da temperança, fortaleza, justiça e prudência, nessa ordem, que evitará que essas bolhas e camadas se formem.
João Malheiro é doutor em Educação e integra o grupo de Pesquisa de Ética na Educação da UFRJ.
5 de setembro de 2010
A luta continua - Miriam Makeba (África do Sul)
Miriam Makeba, show ao vivo na Holanda, 1979. Homenagem à independência do Moçambique. Refrão em português...
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